KM 0: Todo começo no norte do México

Faz uns 4 anos, antes de que o norte do México virasse um banho de sangue, caminhávamos com Emma numa rua de Saltillo concebendo o sonho de transitar as três Americas.

Ainda quando nesses tempos a gente começava a se conhecer, nos atrevemos a imaginar um recorrido pelas veias abertas do continente, com especial ênfase nas comunidades indígenas. Os objetivos não ficavam muito certos, mas confiávamos em que o contato com nossas raízes ajudaria a entender no que momento da história perdemos o caminho.

Ela estava começando sua carreira de jornalista e a mim estavam me esperando muitas historias ao redor do mundo. Ainda assim traçamos um esboço do projeto que incluía um eixo documental (o principal), uma lista de equipamentos e trabalhos e até um cofrinho que devia ficar cheio na hora do começo: 2012.

Desde então, muitas águas tem passado embaixo de nossa ponte, e apesar de que o equipamento foi escasso e o mealheiro foi comido pela crises, a ilusão nos manteve conectados e foi ate o fio da terra durante os momentos mais difíceis.

O futuro chegou

Apesar das minhas advertências sobe o futuro incerto da profissão e ainda em contra da minha vontade paterna, hoje minha companheira fica titulada e com honras. E no só pós se abrir caminho numa instituição com tendência a criar “Jornaizinhos fracos”, senão que o fez com a testa no alto. Sua empatia com os indefesos e sua indignação pela corrupção (elementos chaves do bom jornalista) quase lhe costou a sua excelência acadêmica e até a sua carreira inteira.

Mas com suor e lagrimas, conseguiu vencer cada obstáculo (os acadêmicos foram os mais fáceis) e ficou com certeza –ironicamente- de que seu nome vai ser motivo de orgulho para sua alma matter, junto aos outros formados que escaparam das garras dos médios corporativos e hoje são jornalistas reconhecidos pelo seu compromisso social.

Seu sucesso é ainda mais relevante se consideramos que sua carreira coincidiu com a onda do violência mais grave na historia recente do México, principalmente no norte, onde o fogo cruzado tem causado a morte de estudantes e tem situado ao pais como o mais perigoso do mundo pra exercer o jornalismo.

Madurecimento

Para os sonhos, o tempo pode ser uma arma de dois gumes. Por uma parte os alimenta e os faz crescer, mas por outra, os esvazia. Por sorte, em nosso caso o anelo não só logrou sobreviver aos tempos de apatia, senão que tem ido madurando ao ritmo das experiências adquiridas. Quando um vai fazendo seu caminho as duvidas vão, e novos objetivos nascem.

As experiências trocadas com outros caminhantes enriquecem e inspiram o viajante. Me aconteceu com o Jamerboi, esse Argentino maluco que conheci na Baja California no primeiro ano da seu viagem Alaska-Argentina de bicicleta! Sua preocupação por dar um sentido social a seu desafio pessoal, inspirou-me quase tanto como seus viagens à Antártida.

Foi por ele que eu conheci o trabalho que fazem as aldeias infantis SOS para a proteção dos meninos em situações de risco na América latina. E ainda quando nem ele ou essa organização souber, nossa missão de divulgar seu trabalho vai ser um dos eixos do nosso projeto.

Outro mundo e possível

O tempo também tem jogado a favor do projeto em outro aspecto: depois de muito anos de encher o saco ante o banquete neoliberal dos políticos e os empresários, a sociedade esta se mobilizando para pegar as rédeas da democracia.

Já seja pelo esotérico 2012, ou porque o avance da tecnologia faz que a brecha entre os ricos e os pobres seja mais paradoxal e insultuosa, o certo é que os ventos do troco estão soprando com mais força desde o sul.

As manifestações mundiais que chegaram até o coração financeiro dos Estados Unidos são prova disso. Tanto no sul como no norte os movimentos cidadãos não estão atuando pelos benefícios pessoais, senão pela necessidade de gerar trocos profundos nas estruturas do governo, as quais tem sido seqüestradas pelos partidos políticos ao serviço do dinheiro.

Pela primeira vez na longe noite dos quinhentos anos, a exigência de um troco real na América não vem de uma classe privilegiada nem das massas trabalhadoras, senão da gente de todos os estratos sociais quem rejeita continuar sendo cúmplice do extermínio e da involução.

Com eles e para eles

A idéia de recorrer o continente do polo ao polo tem madurecido junto com esse espírito do troco que agora mesmo permeia no mundo todo. O importante agora é a gente que nos conheceremos mais do que o recorrido mesmo.

Inspirados pelos defensores, os trabalhadores sociais e todos aqueles que estejam recuperando os valores perdidos para herdar um mundo melhor, estes humildes caminhantes preparam-se a realizar uma viagem da vida.

Nosso combustível será a energia de aqueles que de uma ou outra forma nos inspiram: Jamerboi, as aldeias infantis SOS, Jack Fresco e seu projeto Venus, o Biblioburro, a arma de destruição massiva, o gênio do Eduardo Galeano, os cineastas da escola do Moore, escritores comprometidos como Naomi Klein, os movimentos 15-M e OWS, as organizações que lutam para garantir os direitos humanos e outros tantos que desde o anonimato empuxam para virar este mundo sobe seus pés de novo.

Por ele e para eles vamos recorrer esse caminho alternativo com a esperança de apertar as mãos que estão forjando um futuro mais promissório.

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